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DO CÉU AO INFERNO

Capitulo 1
A algazarra era enorme.
Guitarras expandiam seus sons por todos os lados. Castanholas de mão marcavam
o ritmo. Violinos solavam musicas centenárias. Em suma, era mais um dia no
acampamento da tribo. Em um canto, como sempre sombria, a matrona a tudo
observava e sem demonstrar um mínimo de sentimento de alegria ou tristeza,
controlava tudo e a todos com um simples meneio de cabeça ou um olhar e só se
retirava quando o grupo ia dormir.
Mal o sol aparecia, os jovens eram instados a levantar e apanhar lenha para o
café matinal. Aí começaram os problemas. Ao invés de cortar lenha nas matas
como seria normal, os rapazes retiravam moirões das cercas das fazendas
próximas, roubavam uma ou outra rês ou até mesmo um carneiro ou um porco que,
sem sombra de dúvida matavam a fome de todos.
Aliás, aqui abro um preâmbulo, não para justificar esse tipo de procedimento,
mas, dentro da ótica de um povo nômade que, como os judeus vivem sob
perseguição por povos e governos de outras raças. Conosco, também não era
diferente. Só conseguíamos ganhar o Bravalin (dinheiro) através da leitura das
mãos, colocação de cartas e um ou outro serviço de tanoagem. Alguns dos mais
abastados da tribo se dedicavam ao escambo, sendo que o ouro e a prata eram
mercadorias preferidas. O serviço continuo, além de se impossível face a
constante locomoção, jamais seria obtido pela prevenção contra esse povo
nômade por excelência.
Da mesma forma acontecia com a defesa e o controle da raça que obrigam as
crianças ciganas desde cedo a efetuar a cerimônia da libação ad perpetuam ,
onde os pais decidem quem e com quem os filhos irão se unir , aliás , é de bom
alvitre esclarecer que o casamento , embora ocorra prematuramente , desde os
cinco anos , entretanto , a união sexual somente se consuma após a puberdade .
Esse cuidado se escuda num processo seletivo de apuro racial, onde só os
fortes sobreviverão. É certo que entre os ciganos, não existirá jamais um
membro do clã doente ou defeituoso, mesmo reconhecendo que sob vários
religiosos ou morais, dito procedimento é condenado, entretanto, a situação e
o estado de necessidade não nos deixa outra alternativa. Deste modo, quando a
mulher está preste a conceber, é acompanhada pela Matrona (Cigana mais velha e
capaz da tribo) que a assiste como mãe, parteira, companheira e, logo após o
nascimento examina o nascituro para verificar a ocorrência de qualquer defeito
físico, exames esses que usam a técnica do do-in e, em caso positivo, procede
a eliminação pura e simples, matando-o e enterrando-o em uma cova aberta pela
própria em pé. Após, festejam ou continuam em suas atribulações normais, como
se nada tivesse acontecido.
Ainda, tão somente com o intuito de esclarecer, nos reportamos ao fato dos
Ciganos roubarem crianças. Embora, hoje em dia, tal prática não mais encontre
eco pelo aumento populacional da raça em si que chega ao cúmulo de famílias
serem obrigadas a doar seus filhos, na época do inicio dessa narração, por
volta dos anos 40, mais precisamente em 1944, na fronteira do Brasil com o
Paraguai em Mato Grosso , era costume o roubo de crianças para o aumento e a
manutenção da raça. Ou se nasce cigano ou se faz o cigano.
Aliás, a formação do homem e da mulher cigana obedecem a padrões de milênios,
sofrendo apenas algumas adaptações à cultura e a vida moderna. Reserva-se a
mulher a arte da quiromancia, da sedução, da cartomancia , do misticismo e da
religiosidade (o povo cigano é por tradição espiritualista). A buena dicha
(boa sorte) é oferecida em troca de algumas moedas ou outro qualquer tipo de
vantagem. de graça, a cigana só dá o sorriso!
O homem cigano aprende desde cedo a arte da prestigitidação, da manipulação,
da musica, da arte, da tanoagem e, principalmente do furto, sendo que o homem
só estará pronto, quando for capaz de retirar um lenço ou uma carteira de um
manequim coberto de guisos e sem deixar que um único som saia do mesmo.
Creiam e acreditem! Sei que é ilegal, imoral e até mesmo injusto, mas é a
própria sobrevivência do individuo nesta sociedade falsa e segregacionista.
Se alguém, mesmo agora, ainda tiver duvidas desta segregação, aponte um cigano
e, imediatamente, as atenções se voltarão para ele.