PHOENIX

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CAPITULO IX

Como nada na vida acontece sem motivo, comecei a explorar o mundo “novo” e avistei uma coisa enorme que abrigava um sem número de bichos, a maioria completamente desconhecida para mim.

Curioso, como qualquer criança, dominei o medo e, sorrateiramente fui me aproximando daquela casa enorme de pano. Era um Circo!

Quando Shakeaspeare escreveu que “existe mais coisas entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia”, certamente não se referia Amim ou aos ciganos e, nem poderia. No entanto, ali estava uma constatação.

Aproveitando que era dia e que a lona estava levantada, distraidamente entrei pelo interior do Circo. De imediato um arrepio me passou pelo corpo. No picadeiro dois saltimbancos praticavam estripulias, ao avista-los, não tive duvidas. Eram Egon e Tamara, dois ciganos de minha tribo e que jurava que haviam morrido.

Nos olhamos mutuamente e, sem mais palavras, corremos ao encontro um do outro e ficamos abraçados por um longo período sem nos preocuparmos com as lagrimas que desciam de nossas faces.

Tâmara me pegou pela mão e levou-me ao interior da tenda onde me serviu uma suculenta refeição e pegando-me em seu colo, embalou-me até adormecer.

Acordei pela noitinha com o barulho da “furiosa” que anunciava o início da função. Tamara pegou-me , mais uma vez na “coxia” do palco para que dali pudesse assistir a função que se iniciava . Sem mexer uma pestana , fiquei estático até o final da função nem notando que Egon e Tâmara estavam a meu lado “me assistindo” .

Em companhia de ambos fui para sua tenda e logo me acomodei num canto que já estava preparado e reservado para mim .

No dia seguinte , mais parecendo um ritual fui recebendo a noticia que meus tios Joe, Haley , Pierina , Irineu , Lála e minha mãe tinham escapado ou se fingido de mortos .

Mas eu vi a mãe morrer , exclamei !

Que nada , a Táta tem sete vidas e mesmo baleada e tendo um dos seis perfurados , conseguiu sobreviver . Quis saber onde ela estava e Tâmara pediu-me que aguardasse que na hora oportuna ela apareceria . E, numa mistura de alegria e estupefação passei a compor o elenco do mundialmente conhecido ;CIRCO GARCIA!

Ao iniciar os treinos como saltimbanco , de súbito me veio a memória dos acampamentos e das práticas circenses muito comuns entre os Ciganos e assim após um breve treinamento passei a integrar a troupe de LOS HERMANOS SOZA .

Desta forma , de saltimbanco , palhaço e trapezista passei a me destacar na troupe até que um dia recebi uma noticia que me deixou perplexo e paralisado . Chegaria ao Circo, os novos contratados ; “OS ÁGUIAS HUMANAS” na ocasião juntamente com o renomado IRMÃOS QUEIROLO eram um dos maiores grupo de trapezistas do mundo e a maior surpresa era que os integrantes desse grupo era nada mais nada menos do que minha mãe CONSUELO , meu tio JOE e uma prima de nome LOANDA . Neste dia , nem dormi !

Por volta das 08:oo hs, já estava plantado na porta do circo e todo automóvel que parasse ou diminuísse a marcha eu ensaiava uma corrida . Para me castigar , eles só chegaram lá pelas 18 horas , quando já nem mais acreditava que viriam . Mas vieram !

Foi uma festa só, risos, abraços e só se falava em boas noticias . Queria falar tanta coisa , tinha tanto para contar que , numa verdadeira confusão mental , emudeci . Coisa de louco !

Nessas horas e em certos momentos da vida da gente não queríamos que nunca acabasse e que ficasse por todo o sempre como se encontrava . Mas , tem sempre um, mas , e, comigo também não foi diferente . Tudo aconteceu, como não podia deixar de ser , numa noite chuvosa. O circo estava lotado. Seu Garcia , de fraque e cartola anunciava a atração máxima do Circo ; Os águias humanas !

Os trapezistas praticamente se dividem em duas funções ; os volantes e os aparadores . Eu e Loanda éramos volantes e já começávamos a ganhar fama mundialmente pelo lançamento do mortal triplo que consistia praticamente em dar três voltas no ar até sermos aparados pelo Base que no caso era meu tio JOE.

O uso de redes não era permitido e, a bem da verdade , os próprios trapezistas não admitiam seu uso . Pura tolice !

JOE chegou em cima da hora e todo encharcado mal teve tempo para se trocar e se enxugar . O número já se iniciava . Subíamos célere pelas cordas ao som de um “Can Can” . A postos , fazíamos a “marcação” através de gritos e palmas previamente combinados .

Minha mãe balanço e foi assumir seu lugar de aparadora no segundo trapézio . JOE ficou , como de costume , na base . Eu parti e num simples passeio dei inicio ao espetáculo . LOANDA , a trapezista “piu bela di mondo” deu seu primeiro salto sendo aparada por Consuelo . Em seguida me lancei e troquei de posição no ar com LOANDA que se jogou em direção a JOE .

Só escutei o grito : MEU DEUS!AJUDE-ME! E , em seguida uma confusão e uma balburdia inenarrável . Pasmos , suspendemos o espetáculo e descemos . LOANDA com várias costelas a mostra , estava inerte . Um médico, por favor ! Chamem um médico ! Gritavam histericamente populares .

LOANDA , ainda com vida , foi levada para o então Hospital Souza Aguiar onde ficou internada por vários anos e após uma série d cirurgias , finalmente teve alta , hemiplégica e alienada .

O espetáculo continuou . Nós não. Desempregados , com a pecha de irresponsáveis , não fomos mais aceitos em outros circos . Minha mãe continuou a trabalhar com outro nome e como domadora de elefantes , malabarista e equilibrista .

Por força das circunstâncias , fiquei sob os cuidados e uma senhora de nome Guiomar que residia na Rua do Riachuelo .

Mas, aí , já é outra história !

FIM