VIDA QUE SEGUE

VIDA QUE SEGUE


CAPITULO V

Neste ponto, esclareço que soube mais tarde que me encontrava em uma mata que ficava no final da Rua Valparaiso na Tijuca.

Desci da mata para a rua e vislumbrei o primeiro transeunte. Era um senhor. O instinto mais uma vez falou mais forte. Deveria confiar nos mais velhos principalmente aqueles que tivessem cabelos brancos.

Não me aproximei. Fiquei estático. O velho me saudou:

Oi! – exclamou.

Não me mexi, assim como não respondi. Veio a primeira surpresa. Ele falava tão engraçado. Não entendia nada do que ele me dizia. Não sei porque, embora não estivesse entendendo nada, notei que o velho brincava comigo. Só não compreendia porque ele não falava a mesma língua que a minha.

Até entender que eu falava uma mistura de Rumani com Tupi Guarani, ou seja, eu falava um dialeto que até hoje tenho dúvidas se existe alguém na terra que pudesse me entender. Lembro-me que feijão era uliguligol. Era o fim da picada!

Eu tinha a meu favor um tipo de beleza diferente dos habituais por razões óbvias, em suma era bonito e simpático.

Foi o que me ajudou!

A bem da verdade, no começo dos meus primeiros contatos com os “humanos” confesso que, paradoxalmente, de uma certa maneira, a beleza me atrapalhava, pois todos exclamavam:

Como é bonito este garoto!

E me perguntavam o que eu queria.

Sei que difícil de explicar, mas eu entendia tudo o que me perguntavam, somente não podia ou não tinha meio de me fazer entender. Assim, tentava angustiosamente me comunicar pela linguagem internacional da mímica. Só que eu queria comer e aquelas pessoas compravam doces e mais doces. Não sei porque não fiquei diabético com tantos doces.

Os doces apenas tapeavam minha fome, eu queria mesmo era comer. Lembrei-me daquela lixeira. Deveria haver outras. Procurei e acabei encontrando e, depois de um longo tempo comi comida salgada.

‘ A partir daí passei a revezar a cidade com a mata e, após uma caminhada, encontrei uma casa abandonada e onde imediatamente me instalei. Pela primeira vez na minha vida me senti realizado. Era dono de alguma coisa que não era minha!

De repente começou a chover. Chovia muito. De imediato, veio-me à idéia a associação da chuva com a matança. Sai de casa e sob chuva acocorei-me e fiquei sob uma árvore onde cansado e encharcado, adormeci!

O sol já estava alto e com todo esplender quando tentei abrir os olhos e não conseguia. Tiritava de frio!

Como só possuía uma muda de roupa que, aliás, já deveria estar muito surrada, só me restou o recurso de retornar a casa e procurar me esquentar. O frio era intenso e aumentava. Embora só hoje tenho conhecimento de que estava com pneumonia. Na ocasião só queria um pouco de calor e me deitar. Por estranha coincidência, verifiquei que estava em cima de várias folhas de jornais e sacos de aniagem, velhos abandonados, talvez por mendigos ou outros desafortunados. Enrodilhei-me bem e dormi! Nem sei por quanto tempo. Somente me recordo que no dia em que acordei, o sol estava forte e meu estomago doía como nunca.

Era fome!

Gemendo de dores, fui mais forte que a doença e levantei-me. Eu tinha certeza que era mais forte que a doença!

Tinha que ser!

De imediato, me dirigi ao único lugar que saberia que encontraria comida.

No Lixo!

Só que desta vez, tudo mudou. Quando já tinha localizado a lixeira de um bar e iniciava a busca por um naco melhor, fui surpreendido por um senhor obeso que me impediu e mandou que aguardasse um momento e, virando as costas, desapareceu no interior de um bar. Por falta de alternativas, esperei seu retorno que foi rápido e vinha com um prato na mão!

Confesso que embora, reitero, o sentido do tempo não me fosse familiar, entretanto, podia garantir que, nas últimas vinte luas (cerca de quatro meses) era o primeiro prato de comida que comia.


Ah, já ia me esquecendo aquele prato de arroz, feijão, macarrão e carne não estava solitário. Foi acompanhado por um gostoso e delicioso guará, um refrigerante da época.

Como um gato mimado, retornei diariamente ao local e sempre tive a colhida por parte do seu Zé broa, o qual, em troca de comida, determinava que eu o ajudasse na limpeza de seu estabelecimento que hoje sei que era na Rua Conde de Bonfim.