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CAPITULO VIII
Naquela época era costume o DGI, uma espécie de Radio Patrulha que policiava
as ruas e prendiam menores que vagavam nelas vagassem. Para meu desespero,
certo dia, as coisas conspiraram contra mim, tinha um vidrinho de penicilina
usado, esquecido na calçada, me chamou a atenção, fui dar chute no mesmo, só
que por infeliz coincidência, dito vidro se projetou contra um outro vidro do
carro do café Palheta (marca muito usada na época). Parei assustado com o
estrago e, como não tinha culpa não corri, tentei me desculpar com o
motorista, mas, atrás de mim estava o Flamenguinho como era chamado a RP que
me prendeu e levou-me até o Juizado de Menores que ficava na Rua do Riachuelo.
De lá, fui encaminhado para o SAM (hoje FUNABEM) na Rua Francisco Bicalho e,
após ganhar uma série de palmatória nas mãos, fui encaminhado ao IPQN em
Quintino. De saída tive a primeira experiência com a marginalidade, foi quando
um dos internos, após contar uma série de vantagens, se gabando dos roubos e
dos furtos praticados, perguntou-me porque estava lá, recebendo como resposta
que estava lá por causa de uns bobalhões como ele! Como viram que eu não era
bobo, me deixaram em paz. Até porque minha permanência foi pouca, graças a um
funcionário que deixou uma janela aberta perto de uma árvore o que me deu a
oportunidade de fugir dali.
Corri e fui parar na então praia das Virtudes, lá conheci o “Seu Negão”, um
preto enorme com quase uns dois metros de altura e que vivia nas pedras da
Praia e, pela primeira vez, conheci um dos maiores ignorantes e grossos que a
Natureza poderia dar.
Pelo menos pensei!
Na realidade, hoje sei, não era nada disso, por dentro era uma das almas mais
caridosas que conheci. Nunca me falou uma palavra amena, mas ensinou-me várias
lições, sendo que a primeira e principal foi a da sobrevivência na cidade
grande. Ensinou-me a mergulhar e a nadar, simplesmente me jogando nagua e,
após beber um bocado de água, finalmente aprendi. Depois me ensinou a pescar
siris, mexilhões, caranguejos do mar e cavalos marinhos que vendia em casas de
turismo que existia na Praça Mauá, lembro-me que uma delas chamava-se Zitrin.
Os mexilhões vendia num Restaurante que existia nos Arcos e que era
freqüentado pela elite carioca.
Aliás, na Lapa tive uma experiência que me marcou até hoje. Perambulando pela
rua, após receber uma prata de dois mil réis pelo pagamento de uma encomenda
de mexilhões, sentei-me junto ao meio fio e fiquei brincando com o dinheiro,
quando um “malandro” da época chamado “Naval” se aproximou e tomou-me a moeda
e me deu um empurrão e saiu andando. Comecei a chorar. A meu lado parou um
senhor forte que todos chamavam de Satã (Madame Satã) que com sua voz e forte
sotaque nordestino, indagou-me o que houve e, chorando, narrei o episódio e
mostrei onde o “Naval” tinha entrado, era um salão de sinuca chamado Águia
Azul e, após alguns instantes, já alheio aos fatos, só vi quando “Naval” era
arremessado da janela do primeiro andar do salão no chão. Depois, com a maior
calma do mundo, Satã desceu, revistou “Naval” e revirando seus bolsos apanhou
todas as moedas que existia e chamando-me entregou-me todas .
Nunca mais mexeram comigo!